A história tem demonstrado que, no desfiar dos séculos, certas instituições, certos organismos atados a quadros culturais, de letras, artes ou cênicas, de conhecimentos humanos, enfim, valem pela sua solenidade, pela sua tradição. Muitas vezes, tão somente. E nesse ambiente que se consagram o estudo, a meditação, a criação e o trabalho e onde se equilibram os valores das classes sociais. A solenidade e a tradição subsistem na razão direta do tempo de existência desses organismos. Eles necessitam de antiguidade.

Nesse aspecto, um organismo novo é o mesmo que uma religião sem mistérios. A antiguidade é o repouso de segredos insondáveis. E a garantia contra a violação de veihos cânones, cuja linha obrigatória de conduta é, no decorrer dos anos, jamais distanciarem-se das realidades culturais. Essas Casas de Cultura são ouvidas e respeitadas justamente porque carregam consigo o peso da responsabilidade calcada em reputacão ilibada.

Entretanto, deve haver interpretação correta quanto ao que na verdade possa representar ou significar o vocábulo antiguidade. 0 Brasil tern sua certidão de nascimento registrada ha apenas quinhentos e poucos anos, e a civilização que nele se desenvolveu não primou pela conservação das provas materiais de sua origem.

Edifícios foram demolidos em nome da necessidade da implantação da arquitetura adequada aos tempos novos, ruas que traziam solfejos de memória sujeitaram-se a alargamentos intempestivos, quando nada menos se buscava do que paliativo momentâneo, como resolução para mais duas ou trés décadas apenas; vetustas instituições passaram a sofrer reformulações fundamentais, descaracterizadoras de suas raIzes originárias, isto quando não totalmente extintas por terem-nas deixado cair na decrepitude e na falta de sentido, justamente porque se distanciaram das realidades culturais, como as leis que perdem seu sentido de ser face das transformações essenciais. E nisso, como tern basilar, está o espIrito das épocas!

No ano de 2007) o Instituto dos Advogados do Paraná festejou 90 anos de sua fundação, ocorrida precisamente no dia 10 de junho de 1917. Década privilegiada esta segunda do século passado, pois, além desse organismo, nasceram, da genialidade e coragem de grupos distintos de intelectuais, mas irmanados na mesma substância e perfume, o Centro de Letras do Paraná e a Universidade, já tao sonhada anos antes por Rocha Pombo.

Foi uma década sem duvida brilhante, porque os organismos fundados deram não so mostra do poderio intelectual da geração, mas também o ritmo que as esferas dominantes e assentadas e mais a juventude desabrochante proporcionaram a vida provinciana da modesta Curitiba em plena belle epoque. A juventude corajosa, conhecida na época como “jeunesse dorée”, sacudiu as bases dos velhos cânones e, sem violentá-las, adequou as medidas as realidades culturais da época, de mãos dadas inclusive com os velhos patriarcas paranistas.

Emiliano Perneta e Pamphio d’Assumpcão rumavam juntos diversos caminhos. 0 primeiro, auditor da Justica Militar e advogado de certo renome em Curitiba, embora não tenha sido membro fundador do Instituto, não raro era v&10 a palestrar nas esquinas corn o segundo, que além de ter sido o prirneiro presidente do Instituto dos Advogados, partilhou corn Emiliano a fundação do Centro de Letras, instados que foram pelo formidável espIrito de Eucides Bandeira. São exemplos de que memória se pode dar dessa briosa geração, mas dezenas de nornes compõem ambos os organismos, entremeando-se também aos corpos docentes e discentes da Universidade.

Nessa época bastante suscetivel de influência alienlgena, o Paraná sentiu a necessidade de unir suas expressöes culturais e não se pode dizer que nâo teve êxito. A luta foi árdua, sem düvida, contra incompreensões e inveja, em diversas areas. Mas frutificou a ponto de hoje algumas instituições poderem considerar-se vetustas. o caso da Universidade foi mais triste porque, recém-instalada, não obteve licença do governo federal para funcionar, que justificou o fato alegando ainda não haver modelo padrão no Brasil, prirneira que era no Paraná em 1912. Ora, como se o Paraná’ não pudesse ter o direito de ser padrão, precursor que fora em coragem, denodo, inteligência e sorte. Dc qualquer maneira, dever-se-á eternamente àquela geração belepoqueana por tudo que sua audácia nos legou, principalmente pelos valores que se tornaram extratos, solidificaram-se e concorreram para a formação de conceitos de tradição, solenidade e história e corn antiguidade.

A tradição do Instituto dos Advogados do Parana’ já é de noventa anos. Isso representa urn pedaco respeitável de história e da história principalmente de urn pals novo e de urn Estado mais novo ainda. 0 que cern, duzentos anos significam em termos de contexto temporal para palses que possuem mu, dois mil anos ou rnais? E quase nada. Entretanto, para o Brasil, que pouco passou dos quinhentos da data de seu registro de nascimento, cern anos representam vinte por cento de sua idade, realçando-se ainda o fato de que a civilização propriarnente dita somente veio a instalar-se no século XIX.

0 estudo da literatura já muito bern aponta para essa realidade, visto que, a näo ser pelos aspectos históricos, pelos registros corajosos de curiosos escrevinhadores, quase nada o Quinhentisrno forneceu a tItulo de substância cultural. 0 mesmo se deu corn a Escola Barroca, que substituiu por rnais de cento e cinquenta anos e da qual, de relance, sornente se cata na memória os vultos de Vieira e seus indefectIveis “Sermöes”, e de Gregório de Mattos, o mistico angustiado que vivia a dizer o que nào devia, a ponto de ficar conhecido corno “Boca do Inferno”.

E, naquele tempo, essa ousadia era muito perigosa porque o rnenor castigo era a deportaçio. Mesrno assim, a literatura era subjetiva, culteranista, difidil de entender, tanto na forma quanto no conteüdo. O Arcadisrno em seguida veio a aclarar a maneira de escrever, mas o pensamento dos arcades estava voltado para a Grécia ou, quando por menos, para Portugal.

Isso foi o perlodo colonial da literatura brasileira, que se encerra justamente quando, em 1808, D. João, como príncipe regente, chega ao Brasil. Ate então nào houvera despontado nenhum luminar que naturalmente se impusesse perante a história a ponto de sua existência repercutir na vida rnoderna. 0 século XIX, no entanto, foi prodigo em conceder a area dos conhecimentos hurnanos personagens realmente importantes, significativos, que deixaram mesmo suas marcas indeléveis nas estruturas em forrnação. A fase imperial foi uma época de ouro para a inteligência pátria. 0 que ate então enchafurdara-se na conformação colonialista

podia buscar o apoio das estruturas nacionalistas, como se dali para a frente pensar, criar, trabaihar valesse a pena. E antes não. Era a perrnissão maior da existência da nacionalidade. Era o brasilismo.

O país inteiro, então, volta-se para o idealismo subjetivo, para a imaginação movida pelo fator emocional. As grandes atitudes eram românticas. 0 desprendimento encontrável em muitos vultos do século passado nada mais era do que manifestações idealistas, e porque muitas vezes esse idealismo encontrava-se longe do factIvel, tornava-se subjetiva a questão. Empreendimentos houve que jamais sairiam do papel. D. Joao, quando criou o Jardim Botânico no Rio de Janeiro, sornente o fez por inspirações rornânticas e urn pouco também para fazer alguma coisa!

Os sorihos do Barão de Maui diversas vezes quase vieram por água abaixo e so no chegaram a desabar porque bavia rnuita coisa de real em tudo que a cada passo realizava. Alérn desses simples exernplos, ha outros em nOmero incontáveL Foram quase dnquenta anos de romantismo. Entretanto, movidos por esse espirito romntico, idealista, rnuitos personagens tiveram êxito nos empreendimentos, acentuadamente nas areas cukurais e cientificas.

A rnonarquia atravessava mornentos cruciais no campo politico. Interna e externamente. As negociações corn a Inglaterra iam mal, o tráfico de escravos era a pedra no carninho diplomático. E, internamente, a luta obsessiva entre liberals e conservadores, ernbora estrernecesse a pilastra imperial, resultava no surgimento de personalidades que realmente marcaram a História do Brasil, como Joaquim Nabuco, Barão de Cotegipe, Visconde do Rio Branco, Limpo de Abreu, osirrnãos Coutinho, TeOfilo Ottoni e o próprio e já citado Barão de Maid, além da figura talvez mais importante daquela fase de rneados do século passado, tanto corno administrador e político, quanto diplomata e jurista: Honório Hermeto Carneiro Leão, o Marques do Paraná. Alias, Carneiro Leão já vinha atuando na politica desde o tempo de D. Pedro I, sendo político hábil e experiente, embora irascIvel e irritadico, autoritário e centralizador. Mas de grandes ideias e muito respeitado, tanto é que, se algum grupo obtivesse seu simples apoio, verbal que fosse, a credibilidade do empreendimento estava dehnida.

Muitos foram os empreendimentos, alguns que mereceram seu apoio, outros a sua participação direta. Urn desses empreendimentos, em pleno fervilhar de crises politicas em que se batiam liberals e conservadores, foi a fundação, na Capital Federal, no dia 7 de agosto de 1843, do Instituto dos Advogados do Brasil, referto de solenidade e corn o fim preclpuo de criar a Ordem dos Advogados, entidade que teria a função de zelar pela sdeção e disciplina dos profissionais fihiados. 0 Instituto permaneceria como Orgão cientifico, deliberativo, de estudos das questões jurídicas. E seria o paradigma dos institutos províncias. Assim, já em 1875 surgia o Instituto dos Advogados na imperial cidade de São Paulo, sede de uma das Relações do Império.

No Parana, a primeira manifestação para criação do Instituto aconteceu em 1913, quando o advogado Jose de Alencar Ramos Piedade, Lente de Direito Civil da nascente Faculdade de Direito do Paraná, propôs, em belo artigo, a criação do organismo no Estado, artigo esse publicado no Correio do Paraná e transcrito no primeiro numero da Gazeta dos T,ribunaes, revista jurídica de curta duração. Entretanto, somente veio a ser fundado em 1917,tendo como primeiro presidente o advogado e professor Pamphilo d’Assurnpcão, paranaense ilustre, intelectual respeitado, beletrista consagrado. Fora urn dos fundadores do Centro de Letras do Parana’, em 1912.

A ata de fundação mostra a assinatura de notáveis paranaenses, como Marcellino Jose’ NogueiraJünior, Vieira de Alencar, Benjamim Lins,Joaquirn Miro, o próprio Alencar Piedade, autor da prirneira manifestaçio a respeito de criar-se a entidade regional, Jose’ Maria Pinheiro Lima, Alberto de Abreu Filho, Generoso Marques dos Santos,Joâo Antonio Xavier Filho,Joao Carlos Hartley Gutierrez, Hugo Simas, Manoel de Oliveira Franco, Paulo Costard, Francisco Ribeiro de Azevedo Macedo, Jose’ Pinto Rebello Junior e Franklin de Araüjo.

Como todos os órgãos que nascem, porém, do idealismo, o Instituto também teve o seu tempo de vacas magras, nos momentos iniciais e clifIceis, quando ainda não possula sede. Desde então vem o Instituto cumprindo a risca sua função, no papel de organismo cultural e de apoio a Ordem e a classe. Revitalizado em 1958, ganhou novas forças e desde então sua atividade é incessante.

Atualmente, sob a presidência do advogado Manoel José Lacerda Carneiro, paranaense e paranista, como todos os que sem remuneração alguma doam parte de seu tempo ao Instituto, que deles necessita como essência de sobrevida, prossegue na trilha vitoriosa, urdida em meados do século XIX, para cumprir a missão que hoje, olhando para trás, pode orgulhar-se de t8-lo feito, sem violentar preceitos de velhos cnones, sem fugir das solenes composturas, apenas com tradição e história. Calcado na antiguidade, jarnais se distanciou das realidades cukurais.

E claro que o organismo da dirnensão do Instituto dos Advogados do Paraná, para atingir seus objetivos, necessita cercar-se das expressões mais significativas do Estado, o que justamente vai proporcionar-lhe grandeza e credibilidade. Alias, é condição sine qua non de toda entidade que se preze.

Algumas chegam a valorizar tanto esse aspecto, que se esquecem do flm a que estio destinadas, revoluteando em torno da busca do prestigio por meio da inclusão em seus quadros de pessoas notoriamente de projeção, celebridades ate, mas que nada ou muito pouco possuem a vincula-las. As pessoas que tem emprestado seu nome com dedicação ao Instituto dos Advogados são profissionais da mais legítirna linhagem. Enumerá-los seria cansativo; pincar nomes do plantel seria injustiça. Como urn todo, desde 1917, vern o Instituto seguindo seus estatutos com acentuada noção de dever, dentro inclusive de uma invejável linha de independência. Embora criado a imagem do órgão prirneiro, que já está a comemorar seu sesquicentenrio, R-lo utilizando-o apenas como paradigma, com o fim de desenvolver seus trabalhos com base acentuada nas conotações locais, regionais, com a “prata da casa”, que, sem duvida, é valiosa e brilhante. Os ciclos de conferências que tem realizado nos ültirnos anos indicam a formidável atenção relativa aos problemas emergentes, dentro da atual convulsão social. Tarefa ingente, mas que se faz com base no plantel que the empresta os valores. E o plantel é bom, é dos melhores, que jamais se distanciou das realidades culturais.

Valério Hoerner Junior